
Lenda Cobrinha do Barranco

Lenda Cobrinha do Barranco
Conta a lenda que…
… ali, mesmo em frente à residência paroquial da Mexilhoeira Grande havia, até há uns anos, um barranco, aberto na barreira, por onde todos tinham medo de passar.
Havia o relato que naquelas bandas aparecia um mourinho encantado, de quem todos tinham receio.
Entretanto, a Câmara Municipal construiu a estrada que atravessa a vila até à Igreja. Já não há medo, mas ainda a história que foi deixada para o futuro no livro “As Mouras Encantadas e os Encantamentos do Algarve”, de Francisco Xavier d’Ataíde Oliveira.
Reza assim: Havia em tempos idos um maioral de cabras, casado, que tinha a sua pobre choupana mesmo em frente ao barranco.
Todas as noites ele trazia o leite mugido na tarde com a mulher e filhos, que serviria de alimento. Vendiam o restante e com isso ganhavam para comprar pão para as sopas. De madrugada voltava para o gado, e assim ia vivendo em muita miséria, mas ainda assim satisfeitos todos com a sua sorte.
“Num dia, a mulher do pastor acabava de abafar o leite da véspera, viu entrar-lhe pela porta uma cobrinha, cor de oiro, muito pequenina e tão linda, tão linda, que a pobre mulher, longe de se assustar não podia dela afastar os olhos”.
“Fazia a cobrinha uns meneios com tanta graça, abria a boquinha com tanta gentileza e maneava a cauda em compasso tão vivo e tão fugaz, que era um encanto vê-la.
Lembrou-se a mulher de lhe encher uma escudela de leite ainda morno e pôr-lho próximo, por ter ouvido dizer que as cobras são gulosas deste alimento”.
Diziam antigamente, e ainda há algumas memórias mais antigas que o relembram hoje, que as cobras de noite subiam aos telhados das casas onde havia mães a amamentar para tentarem também elas mamar.
Neste relato, “bebeu a cobrinha o leite com sofreguidão e saiu, não sem voltar repetidas vezes a cabeça para a mulher do pastor, como que convidando-a a acompanhá-la”. Nos dias seguintes, igual. Repetiu-se a cena até que a mulher se resolveu a seguir a cobra.
Ganhou amizade pela cobra, a quem já fazia festas. Esta agradecia o carinho. E assim, a mulher seguiu a cobra, barranco abaixo, entrando ambas por uma abertura, que havia na barreira.
“Imediatamente se levantou uma grande lagem, deixando ver uma formosa escada de alabastro, de onde, ao mesmo tempo saia um mourinho, muito gentil, de gorro encarnado e que, com modos muito corteses e carinhosos, em repetidas instâncias, pedia à mulher que o seguisse ao seu palácio subterrâneo, porque disso dependia a sua fortuna”, diz a lenda.
“Convencida a mulher de que quem não sabe utilizar-se da fortuna, quando ela vem, não deve queixar-se, quando ela se vai, encheu-se de ânimo, desceu as escadas atrás do mourinho, e achou-se em um formoso aposento de cristal de rocha, e nele viu amontoada em cofres de oiro tanta riqueza em dinheiro e pedras preciosas, que ninguém pode imaginá-lo e menos descrevê-lo”.
— Tudo isto te pertence, disse-lhe o mourinho, em recompensa de me haveres quebrado o encanto em que jazia.
Mas como foi quebrado o encanto? Ora, tal e qual… Não se assustando com a cobra enviada para a levar até ao barranco.
Mas a fortuna não era certa de imediato. Para a ganhar, a mulher ainda tinha que conduzir tudo o que pudesse para sua casa e lá esconder a fortuna, durante três meses, sem que marido e filhos a encontrassem.
Disse-lhe o mouro que este era o tempo que precisava para chegar à mourama, sua pátria, sem suspeitarem da fortuna destinada. “Durante estes três meses jejuarás todos os dias e, sem que eles passem, não tocarás em um real do que daqui levares”, avisou.
A mulher prometeu e assim o fez. E como? Começou logo por dar destino aos filhos, mandando-os para fora de casa. “Tirou as mós do tremonado, limpou-o do entulho que o enchia, meteu nesse vazio quanto dinheiro e joias pôde carregar, cobriu tudo de argamassa, pôs as mós no seu lugar, e dia a dia ia contando o seu jejum com o cuidado de quem não queria enganar-se. Três meses contados, mostrou então ao marido a fortuna que lhes entrara em casa”.
Claro está que daí em diante o marido deixou de pastorar o seu rebanho e ambos se transformaram em grandes personagens. Foram residir na corte, onde foram cobertos de honras e mercês. Os filhos foram também grandes senhores, pois a riqueza era tanta que o seu desbarato se tornou impossível, e ainda hoje chega a fama de gente tão rica.
Só não sabe se a riqueza chegou aos netos, pois ninguém afinal sabia os seus nomes. Assegura o autor que ainda tentou apurar, mas até àquela data, nada conseguiu por ignorar completamente quais eram os seus nomes.
O que deixa esta cobrinha que guiava à fortuna? Que o dinheiro é uma potência, sem rival, que faz de um analfabeto um homem poderoso, até mesmo um par do reino. Será assim mesmo?
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