Lenda Tacho de Ouro

Lenda Tacho de Ouro

Conta a lenda que…
Da Mexilhoeira Grande para o sítio da Rocha ia uma estrada de carreteira muito larga. Certa mulher sonhou que aí, no sítio do Sumagre, onde a via era mais larga, ao pé de uma alfarrobeira, existia um tacho cheio de dinheiro em ouro, guardado por um mouro encantado. Entregaria tão grande tesouro a quem, pelo pino da meia noite, ali fosse e consentisse um beijo do mouro.
Certo dia, a mulher foi e encontrou o tacho de grandeza tal que, se sendo largo o caminho, ainda assim tocavam as asas nos dois valados, que o limitavam. Viu lá que um enorme sapo cobria o dinheiro que estava dentro do tacho. E teria de o beijar para a fortuna conquistar.
Ficou horrorizada com o nojento batráquio e retirou-se cheia de medo e de nojo. Não pensou sequer que o mouro se lhe apresentasse sob uma figura tão asquerosa. A bem da verdade já se tinha acomodado à ideia de beijar um homem, embora mouro, sacrificando por interesse a sua virtude de mulher. Esta sua atitude só contribuiu para redobrar o encanto do mouro.
A história não se ficou por aqui! Passado um tempo, sonhou de novo com o tesouro. Três noites seguidas! Já se ia conformando com a ideia de beijar bicho tão feio e como era extremamente pobre…
Por isso, um dia dirigiu-se ao sítio onde estava enterrado o tacho. Caminhou cheia de ânimo e apresentou, sem repugnância, a face ao sapo. Ao dar e ao receber o beijo, saltou-lhe o globo da órbita, e com o outro que lhe restava, viu ela o sapo, substituído pela figura de um mouro formoso e gentil, que a aconselhou a vir todas as noites, à meia noite, àquele sítio para levar parte do tesouro até que pudesse esgotá-lo.
O mouro desapareceu e assim foi. Andou a mulher na faina de transportar tão grandes valores, até esgotar o tacho. Ficou riquíssima! Zarolha, mas riquíssima e sempre respeitada. Diz-se até que a todos parecia mais formosa, pois já não tiravam os olhos do dinheiro que possuía, conta Francisco Xavier d’Ataíde Oliveira, em ”As Mouras Encantadas e os Encantamentos do Algarve”.
Ainda num passado recente, uma ou outra pessoa de idade avançada recordava a história de Dona Zarolha e até ao século passado ainda restavam as ruínas de um grande palácio, que tinha sido seu.