Centro da Mexilhoeira Grande

A segunda-feira em que a Páscoa sabia a folar

A segunda-feira em que a Páscoa sabia a folar

A Mexilhoeira Grande… quando a Cultura Sai à Rua
Com a Páscoa terminada, mas ainda presente na memória, recordamos hoje algumas das tradições pascais que aconteciam nesta segunda-feira, a seguir à Páscoa. Foram contadas por residentes locais e do Lar de São José de Alcalar ao Museu de Portimão, parceiro neste recontar de histórias da nossa freguesia.
Mas recuando primeiro ao dia de ontem, Domingo de Páscoa, e às procissões de domingos anteriores, como a do Senhor dos Passos, contava Maria Perpétua, do Vidigal, que era costume, quando a procissão saía à rua “para o Senhor passar, jogar rosmaninho para o chão da porta da igreja. Aqui era rosmaninho porque não tinham palmas para pôr, porque no tempo de Nosso
Senhor eram palmas”. Ceifavam com uma foice, levavam um feixe e lá as pessoas compunham. Também usavam folhas de rosa.
Nesse dia, a refeição era feita geralmente de cabrito, porco ou coelho e também ervilhas, legume que a terra ia dando por esta altura. Confecionava-se com coelho ou ovos. Não se comia aves, como já contámos numa das nossas lendas, e que Isabel Justino, de Arão, recorda também noutra versão.
“Os discípulos de Deus diz que estavam comendo um galo e disseram que Deus devia ressuscitar. Um diz assim: “Olá, há-de ressuscitar tanto como este galo que está aqui ressuscita.” E o galo diz que levantou-se e carpiu as asas. Tanto que os galos só têm um rim porque já tinham comido o outro”.
Na refeição só havia carneiro nas casas em que havia mais dinheiro e na Mexilhoeira só um homem os vendia. Era o Manuel “olho e meio”, que andava de porta em porta a perguntar quem queria para os ir buscar a Monchique.
Na mesa não faltava também o folar, feito em casa. Usavam farinha, lêveda ou fermento inglês, açúcar, erva-doce, canela, leite, banha de porco e havia quem fritasse toucinho e empregasse essa gordura. Vem à memória destas gentes “Bibi Leal”, uma grande doceira que vendia folares para fora, confecionados com a gordura do toucinho.
Podiam colocar um ovo ou até não colocar nenhum e eram oferecidos a familiares, afilhados, amigos ou até ao altar, na igreja. O tamanho do bolo dependia da oferta, como recordava Glória Candeias.
“Quer dizer, a gente tinha um afilhado ou um sobrinho pequenino fazia um bolinho pequenino. Era muito engraçado. Se era já maiorzinho, fazia maiorzinho. Se era para uma pessoa já mais adulta fazia um lindo folar. Se era para uma pessoa amiga. Eu cheguei a fazer folares com dúzias de ovos”, recordava.
E quando amassavam a massa repetiam, tal como para o pão: “Em Santo nome de Jesus cresce o pão no alguidar, em honra da Virgem Maria, um pai nosso e uma Avé Maria” ou “Jesus, santo nome de Jesus, onde está o santo nome de Jesus não há mal nenhum”. Ao mesmo tempo, faziam a cruz na massa.
Chegando ao dia de hoje, a partilha do folar era feita no campo. Havia famílias que referiram ir para a horta da Fabiana, na Figueira. Quando aí chegavam, levavam o folar, as amêndoas, bebida e faziam uma festa com baile e tocador. Ia gente de toda a parte, de Alvor, da Figueira. A Quinta da Rocha ou os Leixões, são outros locais referidos.
“Na segunda-feira de Páscoa [a seguir ao Domingo de Páscoa] juntávamos um grupo de vizinhos e íamos lá para aqueles cerros partir os folares, uns com os outros fazia-se umas grandes festas. (…)Era mais aguardente e bebidas, sumos, anizes”, relata Isabel Justino.
No que toca a festa, na Quaresma, quando esta se “partia ao meio”, era costume ainda realizar o baile da Pinha, na “Brites Batateira”, no Clube de Instrução e Recreio Mexilhoeirense e na Figueira.
Era nesta altura da Quaresma também que os mais novos firmavam os contratos. Um rapaz e uma rapariga ou duas raparigas, encontrando-se nesta altura, firmavam o contrato dizendo: “Contrato, contrato faremos e no Sábado da Aleluia desmancharemos!”
A partir daqui, no sábado de Aleluia, andavam a espreitar a pessoa com quem tinham feito contrato para os surpreenderem e sentenciarem: “Ajoelha-te e paga!” E o outro teria de pagar as amêndoas da Páscoa.