
Tradição e rega a rojo: o campo que ainda respira
Tradição e rega a rojo: o campo que ainda respira
A Mexilhoeira Grande… quando a Cultura Sai à Rua
A nossa freguesia é rica em histórias que mostram a identidade das gentes. Há ecos destas vivências um pouco por todos os cantos e a agricultura é uma das atividades que ainda subsiste, ainda que com um cariz mais familiar.
Os invernos suaves e verões moderados, de influência mediterrânica, assim o continuam a ditar. “No princípio todos os terrenos eram cultivados. Culturas de sequeiro, nomeadamente trigo, favas, um pouco de cevada e de grão-de-bico. Tinham as vacas para fazer a lavoura”, recorda José Luís, do sítio da Zambujosa.
“As pessoas queriam aproveitar tão bem o terreno que quase não havia pousios”, conta. Se num ano dava trigo, no outro eram favas, cuja cultura, a par do grão, melhorava o terreno para o trigo, porque deixa azoto na terra.
Aproveitaram os cursos de água e a evolução dos métodos de regadio. “Fazia-se a sementeira das batatas, logo com milho no terreno. E antes de tirar o milho metiam couves”, relata.
Acrescentavam as hortícolas, com as cenouras, melancias, tomates, alfaces, pimentos. Hoje, os pomares são super intensivos”, compara.
Estas práticas ditaram uma produção expressiva, com modos de vida próprios, onde a terra tinha valor pelo cultivo, apanha, debulha, secagem, moagem, conservação e armazenagem de produtos da época.
Convivialidade, solidariedade e entreajuda eram essenciais. Todos tinham pedacinhos de terra cultivados e uniam-se para semear se fosse necessário.
“O meu pai tinha uma mula que uniu com a de outro vizinho para semearem um bocadinho de terra. Lembro-me do meu pai cultivar a terra de alguém que a tinha ao abandono”, acrescenta António da Silva Marreiros, da Mexilhoeira Grande. Quando questionou o pai sobre a razão de o fazer, respondeu-lhe que a terra “ficava feia” sem ser cultivada.
Os vestígios dessa agricultura permanecem, com pequenos pomares e hortas intercaladas, animais a pastar, leiras, medição manual dos regos e rega “a rojo”. E é esse contraste entre tradição e modernidade que confere identidade própria à Mexilhoeira Grande.